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Qual o tamanho dos teus problemas?

Atualizado: 3 de abr.


Esta é a primeira reflexão (1/3) de uma série sobre o que estou experimentando em Deus.


Certa vez, minha avó paterna disse algo a meu respeito — não diretamente para mim, mas para outras pessoas. Até me parece que deve ser comum aos avós, com todo amor e carinho, preocuparem-se com o que os netos estão fazendo e se estão seguros. A questão do seu comentário era a decisão que eu e minha família havíamos tomado sobre onde morar. Ela achou imprudente, da nossa parte, ir viver em um lugar “inusitado”: um terreno no interior, nas proximidades de um rio e de frente para uma barragem que abriga pelo menos 58 milhões de m³ e cerca de 450 hectares de terra inundados.

Talvez ela tenha razão, parece bastante água. Mas lembro-me de brincar com meu humor “parcialmente negro”, que faria uma casa em forma de uma arca; quem sabe, caso acontecesse algo, sairíamos navegando. Ou dizia que, quando a “senha chama”, não importa onde você esteja; é a sua vez. No fundo, eu estava tentando justificar minhas escolhas. Quando eu falava algo assim, algumas pessoas riam, mas, no fundo, aquilo me incomodava e me trazia certa preocupação. Às vezes, eu sentia medo, mas escondia. Houve um período em que dormi mal por dias, pensando nisso. Mal escutava um barulho, e aquilo já me deixava em alerta. Certa noite, tive um sonho, não lembro há quanto tempo, eu via minha casa, com a fundação muito bem estruturada, sendo varrida pela água logo abaixo. A força da água arrancava a terra ao redor das sapatas. Foi um pesadelo terrível. Contei à minha esposa no dia seguinte.

Passou certo tempo. A barragem ainda estava intacta. O sonho de morar naquele lugar, com árvores ao redor, natureza exuberante, o rio aos fundos do terreno, seguia vivo. Os planos borbulhavam em minha mente, em parceria com um de meus melhores amigos. Eu tentava criar o lugar perfeito, um lar para meus filhos, um sonho que levei muito tempo para convencer minha esposa a abraçar comigo.

Permita-me fazer um adendo antes de seguir; você logo entenderá. Sou um observador ávido dos céus. Sempre desejei comprar um telescópio, mas, como bom perfeccionista, os que eu queria eram caros, então nunca comprei. Não sei, mas parece que sempre sonhamos acima dos nossos limites. Risos.

Ao observar o céu, compreendo minha pequenez. Não acredito que alguém possa contemplá-lo e sentir-se grande; se for o caso, é um tolo. A imensidão do universo nos reduz de tal forma que a barragem que mencionei no começo… bem, ela já não me parece tão grande assim.

Mais algum tempo passou, e começamos a construir nossa casa naquele local. O sonho havia começado; estava em andamento. A barragem não rompeu, nem sequer se moveu, na verdade. E, sinceramente, creio que nunca se romperá, se Deus assim quiser.


Mas aconteceu algo muito menor. Realmente pequeno. Digamos… quatro centímetros. E isso mudou a minha vida.


Deixe-me contextualizá-lo. Desde 2015, sofri diversas paralisias faciais periféricas, mais de vinte episódios. O lado direito do rosto paralisava. Eu ia ao médico, tomava remédios, fazia fisioterapia e voltava ao normal. Investigamos durante sete anos. As paralisias persistiam. Perdi a conta dos exames que fiz. Elas vinham e iam embora. Algumas vezes aconteciam à noite e desapareciam pela manhã. Os exames não apresentavam respostas. Médicos chegavam a conclusões inconclusivas, se é que isso existe.

Mas, em outubro de 2024, ocorreu a última paralisia, que, inclusive, persiste até o momento em que este texto é redigido. Só que agora com sintomas diferentes: comecei a ouvir zumbidos e a perder a audição. Passei por outros médicos. Novas hipóteses. Até que o diagnóstico apareceu: um tumor.

Uma massa ocupava parte do meu ouvido direito, próxima ao nervo facial, com cerca de quatro centímetros em seu maior diâmetro. Ainda não sabíamos sua natureza. Seria necessária uma cirurgia para extrair uma amostra e realizar uma biópsia e identificar o tratamento ideal. Os exames demoravam uma eternidade. Quando os resultados chegaram, confirmaram: era um tumor maligno. Um tipo agressivo de sarcoma, comum em ossos de braços ou pernas, caso raro naquela localização.

A ficha demorou a cair. Uma série de sentimentos invadiu meu coração. Tentei manter a sobriedade e a firmeza mental, características que sempre foram minhas, mas não por muito tempo. Desmoronei. Chorava. Dormia mal. Tentava evitar pensar, para não ter de enfrentar os sentimentos que surgiam quando encarava a situação. Não por medo da doença em si, mas, como bom melancólico, pensava na pior das hipóteses.

Difícil era pensar em meu filho mais velho, com cinco anos, já cheio de conexões emocionais comigo. O menor ainda não tinha um ano naquela época. Cheguei a tentar escrever uma carta de despedida, um amigo me desencorajou. Tentei várias vezes. Não saía palavra alguma. E até hoje não saiu.

Recebi ajuda e apoio de muitas pessoas, próximas e outras cujo nome sequer sei. Igreja local, outras igrejas, amigos, família, colegas. Tantos…


Iniciei os tratamentos com quimioterapia. Provavelmente, a fase mais difícil da minha vida. O tumor me incomodava menos que o tratamento. Todos os meus sentidos foram bagunçados. Tocamos o mundo por meio do corpo; Deus preencheu nossa existência de pequenos prazeres através dos sentidos, aos quais só damos valor quando os perdemos.

A brisa calma e suave da primavera. A luz brilhante do sol no inverno. A comida simples do dia a dia. O perfume de uma flor ao olfato. A textura das coisas ao toque.

Tudo isso me foi sendo retirado ao longo dos ciclos de quimioterapia. O que eu sentia era repulsa por estar neste corpo. Mas precisava ser feito.

Quatro ciclos reduziram o tumor de quatro para 2,8 centímetros. Talvez fosse suficiente, pensei. Vamos para a cirurgia. Mas não. Havia dificuldade em definir a gravidade do caso e a complexidade do procedimento. Passei alguns meses relativamente bem após o tratamento, as forças retornando. Cheguei a me alegrar apenas por não estar mais fazendo quimioterapia.


A cirurgia não aconteceu. Seis meses se passaram. Novos sintomas surgiram: a voz falhando, o tumor pressionando o nervo que controla a corda vocal. O tumor voltou ao tamanho inicial. Deus tinha outros planos.

Enquanto escrevo este texto, estou indo para a oitava sessão de radioterapia. Menos dolorosa que a quimioterapia, embora produza certo cansaço. Os efeitos têm sido promissores: as dores diminuíram, a voz está retornando.

Meu objetivo ao contar toda esta história não é conduzi-lo, sim, você, a um “felizes para sempre”, como nos contos de fadas, talvez não agora. Esta é a vida real. Sem trilha sonora. Simples assim. Mas, como amante de histórias grandiosas, não poderia esperar por um final mais feliz do que aquele que está por vir, um final que nem a morte poderá me arrancar. Porque pertenço àquele que escreve histórias eternas.

Quero que você olhe para o tamanho do seu problema.


Nada que provoque angústia e ansiedade merece permanecer no centro do seu coração. Aquele que criou todas as coisas cuida de cada detalhe da sua vida. E, se não for nesta vida, a outra já está preparada. Quando o véu cinza que encobre as belezas deste mundo caído for removido; quando a cortina deste teatro se levantar, veremos Sua face, ou ao menos uma das faces. Estou convicto de que Ele sorrirá para mim. E você, o que espera?

Anseio por esse momento como o dia mais importante do meu existir.

Olhe para as suas lutas. Encare-as de frente. Meça-as. Examine-as. E lembre-se: “Não há um centímetro quadrado em todo o domínio de nossa existência sobre o qual Cristo, que é soberano de todos, não declare: é meu.” (eu não poderia deixar de citar Abraham Kuyper aqui.)

Deus tem Seus motivos ao permitir dificuldades para enfrentar em minha vida. Ele me tem feito compreender Seus propósitos no sofrimento, e o principal deles é o quanto tem me tornado mais parecido com Seu Filho por meio do processo.

É claro que nossa vida deve ser vivida com responsabilidade. Devemos fazer manutenções na barragem para que não se rompa. Devemos buscar um estilo de vida saudável para evitar o câncer. Mas Deus continua sendo Deus, apesar de nós mesmos. Ele criou o maior dos mamíferos e o colocou no mar; mas também criou o menor vírus assassino.

Nesse trajeto, aprendi que não há lugar absolutamente seguro pelas nossas próprias mãos. Nada do que façamos nos garante controle final.

Tenha certeza, ajoelhado aos pés de Cristo é onde o coração encontra segurança e alegria, mais do que em qualquer recurso ou condição que alguém tenha nesta terra. Há apenas dois lugares: aos pés d’Ele ou distante d’Ele. De um lado, solidão e desespero. Do outro, paz e descanso em meio às dificuldades.

E mais do que isso: um dia, todo joelho se dobrará. Ou você se dobra em submissão hoje, diante da majestade daquele por meio de quem todas as coisas foram criadas, ou se dobrará um dia, com desgosto, diante do Justo Juiz.


Qual é o tamanho do seu problema?


Romanos 8.18: “Considero que os sofrimentos do presente não se podem comparar com a glória que será revelada em nós.”

Romanos 8.35–39:“Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou privação, ou perigo, ou espada? "Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todos os dias; fomos considerados como ovelhas para o matadouro." Mas em todas essas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.

Pois tenho certeza de que nem morte, nem vida, nem anjos, nem autoridades celestiais, nem coisas do presente nem do futuro, nem poderes, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.”

Apocalipse 21.4 "Ele lhes enxugará dos olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem lamento, nem dor, porque as primeiras coisas já passaram."


Mesmo que eu morra, e isso acontecerá um dia (poderia ser hoje), será no tempo determinado por Ele. E Ele me ressuscitará!


Confie no que o Senhor tem lhe dado hoje. Não desperdice o seu sofrimento.


1 comentário


s98517587
18 de fev.

Aqui na madrugada, chorei ao ler esse testemunho do esposo da Mari, a qual conheci antes de tudo isso, e me emocionei e relembrei o quanto o cuidado e o amor de Deus nos segue, a bondade dele nos segue e nos seguirá sempre, e me alegro em saber, que o Senhor, hoje me fez relembrar o valor de cada dia vivido e quando esse chegar ao fim. Sempre falamos na vida sobre começos, sobre o presente e até o futuro, mas as vezes esquecemos que somos passageiros aqui, e que a nossa vida é um reflexo de onde será a nossa eternidade.


Deus abençoe a vida dessa família, e que cada dia seja um dia maravilhoso e alegre!


Deus…

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